quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

O Pacto

Andivari acordou após dormir dois dias seguidos. Sua cabeça estava enfaixada e o seu olho ferido estava coberto pelas faixas o deixando com uma visão monocular. Seu peito doía e seu braço estava dormente. No seu ombro, uma dor fincava o fazendo relembrar do golpe sofrido na luta contra homens de Stavianath. Ele havia sido salvo e tratado, mas não lembrava de seus salvadores. Se deu conta que no momento da batalha estava acompanhado por Verbena e Vladislav. Levantou-se assustado buscando encontrar algum dos dois ao seu redor, mas uma forte dor na sua cabeça o fez deitar se novamente. Com a mão na cabeça tentando amenizar a dor o vulto em sua mente o fez olhar para o lado. Lá estava um homem calvo de rosto severo. Olhos verdes e profundos estudavam Andivari.
_Boa tarde cavaleiro! Finalmente acordaste. Temos muito o que conversar. Sou o general Obadian Teron. Eu e meus homens...
_. Onde estão meus amigos? -Interrompeu Andivari. _. Um jovem corpulento e uma jovem donzela. Ambos estavam comigo.
_. Não se preocupe. -Falou Teron com um olhar impaciente por ter sido interrompido. Eles estão bem. Eu garanto. Em breve vocês se encontrarão. Mas vamos falar de você. Seus ferimentos são graves. É um milagre ter aguentado até agora.
_. Não compreendo? Não me sinto tão mal assim. -Questionou Andivari.
_. Isso porque você tem sido tratado pelo meu curandeiro particular. Ele possui vasto conhecimento em medicinas alternativas. Mas esse bem-estar é passageiro. Você provavelmente perderá a visão do olho ferido e os movimentos de um braço. Seus dias de guerreiro chegaram ao vim. Justo agora que eu contava com sua ajuda nessa guerra sofrida.
_O que te faz pensar que eu tomaria parte de algum lado dessa guerra se sentido? E que diferença faria um guerreiro a mais em seu exército. 
_. Não me tenha por um tolo Andivari. Todos os soldados te conhecem. As histórias sobre a batalha das “Areias profundas” ainda encorajam jovens a se alistarem em vários exércitos. Mas, não estou aqui para falar de seu passado. Estou aqui para falar de agora. De como você pode me ajudar a pôr um fim nessa guerra. Ainda há alguns rebeldes do povo de Stavianath oferecendo resistência. Mesmo sem nenhuma chance de vencerem. Isto só tem causado perdas desnecessárias de vidas.
_. Os seus exércitos não pareciam estarem preocupados com perdas de vidas quando atacaram de forma cruel os civis das cidades de Stavianath. Eu estava na capital general. Vi com meus próprios olhos a crueldade e covardia de seus homens. E agora que os guerreiros de Stavianath começam a oferecerem resistência você quer que eu o ajude a pacificar a situação? Acho improvável.
_. Você parece levar em grande consideração o povo de Stavianath não é mesmo? Não se esqueça que eram homens de Stavianath que atacaram você e seu amigo e quase estupraram a jovem que os acompanhava. Qual é mesmo o nome dela? Verbena, certo? -Falou Obadian com um tom de sarcasmo na voz. Minha intenção é evitar mortes desnecessárias. Os rebeldes não me ouvirão, mas, se você falar com seus líderes pessoalmente, talvez possa convencê-los a se renderem. Em troca eu providenciaria liberdade para você e seus amigos. Além de pedir ao meu curandeiro para se empenhar em sua total restauração.
_. Irei pensar. -Disse Andivari. Você mesmo disse que meus ferimentos são graves demais para que eu possa recuperar-me totalmente. E o que aconteceria com os soldados de Stavianath que se rendessem?
_. Ora homem, não há muito o que pensar. -Indignou-se Obadian Teron. – Pensa em sua amiga. No seu pupilo e em você mesmo. Os soldados de Stavianath receberam julgamentos justos. A maioria ganhará a liberdade dentro de alguns anos. O próprio rei me garantiu isto. Faça o que é certo. Salve vidas. Salve a sua própria vida.
Andivari percebia o tom de voz de Obadian Teron. Se ele não cooperasse provavelmente ele nunca sairia daquela cama. E Vladislav e Verbena provavelmente também seriam punidos. “-devo pensar no bem de todos os envolvidos”.
_. Tudo bem! -Disse Andivari por fim. _eu irei ao acampamento dos rebeldes e conversarei com eles. Desde que você me dê sua palavra de que eles não serão feridos caso se rendam.


_. Você tem minha palavra. Escolheste bem Andivari. Escolheste com sabedoria. Vou enviar meu curandeiro com instruções de fazer tudo o possível para recuperá-lo.
Obadian Teron saiu da tenda dando passos largos e um sorriso de satisfação no rosto deixando para trás um Andivari pensativo.
Logo após sua saída Vladislav e Verbena foram escoltados até a tenda onde Andivari estava. Os três amigos passaram um bom tempo conversando.
Ao passar por um ferreiro que martelava incessantemente uma barra de ferro, Obadian Teron foi surpreendido por uma voz a chama-lo.
_General? Aqui.
Ao olhar ao redor viu que um homem observava as espadas trabalhadas pelo ferreiro que parecia não os perceber.
_. Quem me chama? Oh, Lecain? Aqui?
_. Como foi a conversa com nosso guerreiro. -Quis saber Lecain ignorando o espanto do general.
_. Ocorreu tudo nos conformes. Andivari irá conversar com os rebeldes.
_Ótimo! Cuide para que os ferimentos dele piorem e que ele tenha que ser levado até minha presença. Estarei no palácio real em Anarkden.
_. Sim, senhor. Meu curandeiro tem providenciado isto.

Lecain deixou a espada que manuseava no lugar e saiu dando um rodopio em direção as tendas dos soldados. Obadian Teron ficou o observando sumir por entre as tendas enquanto que o ferreiro martelava e martelava. 

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Assuntos de guerra

Aos primeiros raios de Álax os cavaleiros de Obadian Teron juntamente com os feridos Andivari, Vladislav e Verbena chegaram ao acampamento militar dos soldados de Obadian. Eles haviam cavalgado durante a noite toda. Eram mais de dois mil homens espalhados em tendas por todo o Vale. Uma carroça puxada por dois cavalos fortes e guiada por um soldado esguio levava Andivari e Vladislav que se encontravam feridos demais para cavalgarem enquanto que Verbena ganhara uma roupa nova e cavalgava ao lado do general Teron. Ela possuía alguns hematomas, mas nada grave comparado aos ferimentos de Andivari e Vladislav. Andivari já estava sofrendo as agonias febris de seu ferimento inflamado no rosto e o novo ferimento sofrido no ombro apenas agravou seu estado. Vladislav sofrera vários cortes por todo corpo. Nenhum havia sido fatal, mas a perda de sangue o deixara bastante debilitado.
Os homens no acampamento eram tagarelas por natureza. Por várias vezes Verbena ouviu comentários grosseiros e maliciosos ao seu respeito. Mesmo que tenham sido meros sussurros, não deixavam de deixá-la envergonhada e até enojada de alguns soldados.  Os soldados possuíam cabelos e barbas ruivas em sua maioria. Todos vestiam cotas de malha e mantas verde-musgo por sobre o ombro. Alguns ainda utilizavam chapéus de couro de raposa ou elmos de bronze sob a cabeça. Pela quantidade de rastros e merda de cavalo que havia no chão, estavam acampados naquele local por um longo tempo. Verbena viera, a saber, mais tarde que aquele era o ponto de apoio de onde partiam as buscas por fugitivos do povo de Stavianath. Ficava justamente na divisa entre Markden e Stavianath. Passaram por um descampado entre as tendas onde havia uma forca com seis cordas amarradas em forma de laço.
_Siga-me até minha tenda. –Disse Obadian Teron a Verbena quando adentraram o acampamento.
_Mas... Meus amigos...?!
_Não se preocupe com eles. Meu curandeiro irá cuidar de cada um deles pessoalmente.
            Não encontrando alternativa viável, Verbena seguiu Obadian pelo acampamento até sua tenda. Desmontaram de suas montarias e um criado cuidou de levar seus cavalos até o estábulo improvisado que havia sido construído na parte oeste do acampamento. O chão estava impregnado de lama e cada passo que dava Verbena sentia mais lama entre seus dedos que provavelmente havia entrado em sua bota por algum furo no solado.
            Quando estava passando pela entrada da tenda seguindo Obadian, foi barrada por um soldado que ficou entre ela e Obadian.
_Senhorita, me desculpe, mas terá que deixar sua espada comigo. -Disse o soldado apontando para a espada que Verbena trazia junto à cintura. _São regras para mantermos a segurança do general.
_Não é necessário soldado. Deixe-a passar. -disse Obadian virando se para trás ao perceber o que ocorria. _Se eu não for capaz de me defender de uma donzela, não sou merecedor do título de general.
_Como queira senhor. Mas todo cuidado é pouco. Temos tido problemas com mulheres armadas nesses últimos dias.

Verbena manteve a espada consigo e adentrou a tenda que era mais espaçosa do que parecia. Havia almofadas de plumas espalhadas pelo ambiente e um enorme tapete de peles de lobos no chão. Mesmo com a chuva do dia anterior, o chão permanecia sempre seco, pois a tenda havia sido construída numa enorme plataforma de madeira suspensa uns trintas centímetros do solo. Em uma mesa no centro estava estirado um mapa que Verbena julgou ser das redondezas. Um ponto no centro do mapa parecia indicar a localização do acampamento e três setas desenhadas no mapa apontavam para esse ponto vindo de diferentes lados.
_O que seu soldado quis dizer com “mulheres armadas nesses dias”? -questionou Verbena como quem inicia uma conversa aleatória para cortar o silêncio constrangedor. _Não vi nenhuma mulher no acampamento em momento algum.
_Algumas mulheres têm feito ataques ao nosso acampamento. Elas vêm de canto algum, galopando em cima de seus cavalos e armadas com arcos de longo alcance, efetuam uma saraivada de flechas sobre nós e fogem para a floresta logo em seguida. Um grupo tentou segui-las, mas foram emboscados e mortos a algumas léguas daqui. Os homens as estão chamando de “as viúvas de Stavianath”. Mas não se preocupe. Destaquei um grupo seleto de soldados para descobrirem o esconderijo dessas senhoras e convencê-las que a luta delas está perdida e o melhor a fazerem seria se entregarem.
_Se entregarem para serem estupradas por seus homens? - perguntou Verbena com um tom de indignação na voz mais acentuado do que pretendia ter dito. 
_Não sou homem que apoie esse tipo de violência. -respondeu Obadian Teron enquanto se servia de uma taça de vinho e enchia outra para Verbena. _Você mais do que  ninguém  deveria ter consciência disso.
_Não é o que dizem os sobreviventes das vilas por onde você e seus homens passaram.  As marcas da crueldade estão cravadas na terra por onde seus homens pisam.
_A guerra por si só é cruel, mulher. Muitos morrem e às vezes não são somente soldados. Mas não acredite em boatos que os ventos da desgraça trazem. Eu trato meus prisioneiros com dignidade. Alimento cada um deles todos os dias. E os mantenho protegidos do frio. Você mesma poderá ver com seus próprios olhos se assim desejar. Mas porque essa preocupação toda com os Sthavianathos?  Não foram eles que estavam atacando você e seus amigos quando nós a salvamos de ser violada?
_Sim. E serei eternamente grata por isso, senhor general. Mas não creio que todo um povo mereça meu desprezo por causa de alguns homens. Essa guerra toda é muito confusa para mim. O povo de Stavianath se mostrou bastante hospitaleiro quando estive entre eles. Antes de isso tudo acontecer… - por um momento Verbena se perdeu em um devaneio. Lembrou-se do jovem príncipe Gamblior. De como ele falava da princesa Kathrina. De como ele era apaixonado por ela e de como ela também olhava para o príncipe. Um olhar de amor correspondido. Agora ambos estavam mortos. O mundo é injusto! -concluiu seus pensamentos. _Ainda assim, eu mesma vi a crueldade com o qual os soldados atacaram Stavianath.
_ No ataque a Stavianath os soldados de meu povo ainda estavam irados pela atitude impensada dos príncipes de Stavianath. Como representantes de um povo, os príncipes agiram erroneamente declarando guerra a toda uma nação utilizando como motivo um crime ainda não resolvido. -argumentava Obadian Teron enquanto bebericava seu vinho. _ Claro que era somente uma desculpa para atacar um reino que vinha crescendo economicamente graças a suas minas de Tolnd. Somos um povo pacífico, mas quando descobrimos que nós seriamos os próximos alvos dos príncipes guerreiros, não restou outra coisa a não ser atacar com tudo. Era plano dos Sthavianathos dominar seu povo para tomar as minas de Tolnd e logo em seguida atacar meu povo por causa de nossas extensas florestas que é uma rica fonte de boa madeira. Com essas ações eles não só quebrariam todos os acordos do tratado da trindade do norte como levaria nossos reinos a falência.
_ E o que viria ser o tratado da trindade do norte? -perguntou verbena enquanto se sentava em um amontoado de almofadas de plumas e encostava as costas na estaca central da tenda.
_Bem, - começou Obadian Teron inflando o peito e demostrando um prazer agradável naquela conversa. _O tratado da trindade do norte foi um documento assinado pelos três maiores reinos do norte. Era um documento que alegava união, apoio e amizade entre os reinos de Hellin-Odel, Stavianath e Markden. Diz à história que esse tratado fora assinado logo após o termino da Grande Batalha contra os Kandors, séculos atrás.
_Kandors? Eles realmente existiram? -perguntou Verbena com uma tonalidade meiga na voz.
_Bem, se eles existiram, eu não sei por que nunca vi um. Mas nos relatos mais antigos da história, os Kandors são relatados como seres vindos do céu e que…
            E assim o dia foi passando. Uma taça se tornou uma jarra e logo se quase se tornou duas. Verbena estava grata por ter aprendido a beber grandes quantidades de vinho com seu falecido irmão. Verdade era que Verbena estava com muito medo de Obadian Teron. Tudo que ela queria era se juntar aos seus amigos e saírem o mais depressa daquele lugar. Ela vira com os próprios olhos o massacre promovido pelos soldados markdenos na capital de Stavianath e nada que Obadian Teron dissesse a faria se sentir segura. Mesmo tendo sido salva por eles, ainda temia pela vida. Todavia o dia ocorreu tranquilo. Ao meio dia fora servido uma refeição farta e durante a tarde foi levada até a tenda onde seus amigos estavam sendo tratados. Vladislav despertou ao entardecer, mas Andivari dormiu durante o dia e a noite toda. Verbena também vira a prisão de madeira onde mais de duzentas mulheres, crianças e velhos eram mantidos. A falta de homens fortes na prisão confirmou as suspeitas de Verbena de que Obadian Teron não era homem de deixar inimigos que o ameaçasse vivo.

Obadian Teron deu lhe passe para ir e vir no acampamento. “_ para que você possa vê seus amigos à hora que você desejar.” - ele dissera. Mas Verbena sentia que sempre havia alguém a observando. Seguindo seus passos. 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Aliados ou inimigos?

Fogo. O calor fazia sua pele suar. A ferida em seu rosto abriu-se novamente e começava a sangrar. Mais um estrondo e novamente o teto começou a desabar. Crianças choravam lamuriosas e a poeira atrapalhava a visão. Andivari usou toda sua força e rompeu a corrente que prendia a porta do calabouço. Pulou para dentro e disse: _Vamos crianças. Vocês estão salvas agora.
_Não. Não estamos. –Uma criança respondeu. Logo todas saíram das sombras. Seus pescoços derramavam litros de sangue que jorravam de um corte profundo. Suas roupas estavam rubras e seus rostos estavam cadavéricos. O olhar sem brilho naqueles rostos infantis fez Andivari gritar.
_Acalme-se. Foi apenas um sonho. –Disse lhe Verbena afagando seus cabelos loiros e ressecados. _Tome. Coloque esse pano em cima de sua ferida. Fique quieto que vou ascender o fogo e preparar um ensopado de lebre para nós.
Havia passado três dias desde que Verbena, Andivari e Vladislav haviam saído de Stavianath pela caverna. Perceberam pelas fazendas e vilarejos por onde passavam que a guerra estava acontecendo. E era um inimigo cruel que destruía Stavianath. Um inimigo que por muito tempo havia sido um grande aliado.
Por onde passava, o general Obadian Teron deixava sua marca. E sua marca era cruel. Famílias inteiras eram massacradas após servirem aos seus soldados. Mulheres eram estupradas e crianças mortas pelo simples fato de chorarem. Pelo menos foi o que disse o fazendeiro moribundo que encontraram na fazenda destruída. O fazendeiro logo faleceu, pois suas feridas estavam além dos conhecimentos de Verbena para auxiliá-lo. Agora, o único cômodo que não havia sido totalmente queimado servia de dormitório para os três passarem a noite e cuidarem do ferimento de Andivari.
 A chuva da tarde deixara o solo com o cheiro de terra molhada. Vladislav apanhara uma lebre e a limpava enquanto Verbena ascendia o fogo. Andivari estava deitado segurando um pano úmido com unguentos sobre o próprio rosto. O ardor na ferida de sua cara parecia não querer desaparecer.
Após a refeição Andivari melhorou um pouco da febre. Verbena acariciava seus cabelos enquanto passava um pano úmido em cima de sua cicatriz inflamada. A cicatriz ostentava um aspecto horrível. _Ele perderá a visão do olho esquerdo, como certeza. -Concluía em seus pensamentos. 
Os dois estavam próximos a uma lareira. As paredes ao redor ainda possuíam o cheiro e o aspecto escuro do recente incêndio que destruiu a maior parte dos cômodos da casa. A noite caiu rápida e fria sob os três. Andivari remexia de dor de um lado para o outro. Verbena deitou ao seu lado para aquecê-lo enquanto que Vladislav permanecia escorado no marco de uma porta que havia sido queimada deixando apenas um vão escuro.
A fazenda era em um terreno plano. Na frente da onde era a casa principal o gramado era cortado apenas por uma estrada que se estendia por duas milhas até adentrar na espessa floresta. Nos fundos havia um milharal parcialmente queimado e logo após um vale que estendia até se perder de vista.  Vladislav havia visto as redondezas da casa queimada durante o dia, mas, agora com o cair da noite, tudo o que ele via era a escuridão. Uma escuridão que parecia observá-lo. Uma escuridão intensa que fazia as chamas que lutavam na lareira desejarem se apagar. Uma escuridão que estava acompanhada dos gemidos de um moribundo e a tristeza de uma mulher. Com todos os acontecimentos que se sucederam nos últimos dias Vladislav estava cada vez mais ansioso.
_Ela esta vindo. –Pensava.
E ela vinha. Escura e silenciosa. Com pequenos olhos vermelhos e amarelos no horizonte. Saindo de uma abertura na escuridão. De repente era uma dúzia de olhos flamejantes que cresciam cada vez mais e vinham em sua direção.
_Tochas. –Vladislav gritou para Verbena despertando se assustado de seu devaneio mental.
_Verbena, apague o fogo da lareira. Tem homens com tochas e estão vindos em nossa direção. Dez... talvez mais. E estão a cavalos. Estarão aqui em três minutos.
Verbena saltou rapidamente por cima de Andivari e apagou o fogo como pôde. Recolheu os pertences que conseguia e voltou para ajudar Andivari se reerguer.
Vladislav apenas desembainhou sua espada e deu uma ultima olhada pela porta. Agora já podia ouvir os cascos dos cavalos batendo no solo.

_Vamos. Rápido. Temos que esconder-nos no milharal. – Apoiando Andivari pelo ombro eles correram em direção à porta que dava saída para os fundos. Já estavam a quarenta metros da casa quando ouviram um homem que havia saído pela mesma porta que saíram gritar:
_Aqui. Eles estão aqui atrás da casa.
Logo, o restante do grupo, montados em cavalos apareceram pelos lados da casa e os alcançaram. Seis homens com suas montarias circulavam os três diminuindo o circulo a cada volta deixando os de costas um para o outro até ficarem totalmente encurralados. Enquanto isso outros quatro homens desciam de seus cavalos e desembainhavam suas espadas. Eram homens altos e de cabelos negros como a noite que os cercavam.
“Stavianathos.” - Pensava Vladislav com a espada em punho.
_Ora, ora. O que temos aqui. –Disse um dos homens que desceu do cavalo.
_Três merdas amarelas. E uma tem belos peitos. –Disse outro.
_Peitos? Eu quero peitos. Faz tempos que não mamo uns belos peitos. E não vou me importar de mamar num peito de merda. Espero que tenha xoxota também, hehehe!  
_Eu creio que todos Hellins tem xoxotas, hahahahaha!
_HAHAHAHAHAHAHA! –Todos caíram na gargalhada.
Andivari ergueu a mão com esforço e balbuciou como pode:
_Eu sou Andivari! Era amigo do rei de vocês. Não somos inimigos.
_Não são inimigos? Pois eu vejo três loirinhas fodidas de Hellin-Odel. –Disse um dos homens que possuía uma recente cicatriz no peito e uma espada quebrada nas mãos. _Vocês desgraçados destruíram minha vila e atearam fogo em minha família. Aproveitaram que eu não estava em casa.
_Se não estava em casa como sabe que foi nós que atacamos sua vila. –Questionou Verbena.
_Cala boca, puta! Vocês Hellins aproveitaram que estávamos em missão com os príncipes e juntos com os traíras dos markdenos atacaram nossas vilas e cidades. Todos nós aqui perdemos nossas famílias, nossas cidades, tudo. E vamos foder vocês por isso.
O homem avançou em direção de Verbena e como um raio Vladislav ergueu sua espada e decepou a mão do individuo. Antes que os outros percebessem o que estava acontecendo Andivari sacou a espada e enfiou a na barriga de um dos cavaleiros que caiu do cavalo emitindo um gemido fatal. Enquanto o homem com o coto jorrando sangue começava a gritar Vladislav fazia sua espada dançar aparando um golpe que poderia ter sido fatal e desferindo um contra ataque certeiro no pescoço de um cavaleiro. Verbena jogou uma adaga no olho de um homem que estava próximo e preparou para puxar a espada quando dois homens a agarraram por trás. Um dos cavaleiros fincou a lança no ombro de Andivari que caiu de joelhos enquanto que outros quatros homens caíram golpeando Vladislav por todos os lados. Vladislav lutou por um tempo, mas logo caiu rendido aos ataques maciços dos homens ao seu redor.
Andivari estava desmaiado e Vladislav rendido e sendo obrigado a olhar para verbena correndo de um lado para outro dentro de um circulo de homens que riam e zombavam dela passando lhes a mão ou puxando lhe as vestes.
_Olhe bem cão. – Gritava um dos homens que o segurava no chão. _Você será o próximo.
Três homens estavam mortos no chão e outro ainda chorava a mão perdida, mas os seus companheiros não pareciam se importar nem um pouco. Preferiam se divertir com Verbena que nesse ponto já demonstrava medo em seus gritos de maldiçoes.
Vladislav olhava sem nada poder fazer. A moça já estava com as roupas rasgadas por causa dos puxões dos homens e um de seus seios róseos estava à mostra.
_Você sempre me persegue. Porque ainda não me levou? –Pensava Vladislav
_Chega de enrolação. Segurem na que eu quero possui-la. –Ordenou o que parecia ser o líder.
Verbena tentou lutar, mas foi rendida pelos homens que a agarraram e a jogaram no chão. Eles a seguraram pelos braços e pernas no chão ainda úmido da chuva que caíra na tarde anterior. Os seus seios eram palpados por varias mãos que os apertavam dolorosamente. As risadas, os escárnios e a mão áspera que agora subia lentamente por suas pernas de encontro ao seu sexo, fizeram Verbena sentir um medo que nunca sentira antes.
_Relaxe mulher. Não vai diminuir a dor, mas será mais fácil pra você, hehehe! –Dizia o homem com hálito de cebolas.
_Deusa ajude-me! –Pensava Verbena virando o rosto com nojo.
E como um milagre quase que imediato, o sorriso do homem se tornou um resmungo seco de dor quando uma flecha atravessou seu pescoço. Logo seus amigos também receberam disparos certeiros e começaram a cair uma a um antes mesmo de descobrirem que eram seus atacantes.
Vários homens de cotas de malha e mantos verdes musgo armados de bestas e espadas curtas tomaram conta do lugar. Mataram os Stavianathos, revistaram seus corpos e examinaram seus rostos como que procurando um rosto familiar. Depois ajudaram Vladislav a se levantar e enfaixaram o ombro de Andivari que acabava de acordar ainda meio atordoado e sem saber o que estava acontecendo.
Verbena ainda estava no chão quando que um homem alto vestido com uma armadura negra e um manto vermelho se aproximou e tirando o próprio manto o entregou a Verbena para que ela cobrisse sua nudez. Em seguida lhe estendeu a mão e disse:
_Lamento pelo que sofrestes antes de minha chegada, minha jovem. Mas agora você estará segura.
Verbena segurou a mão do homem de cabelos já amarelados não pela cor natural, mas mais pelos efeitos da idade que também o brindavam com grandes entradas na testa e cabelos ralos no alto da cabeça.

_Você e seus amigos estão protegidos agora. A propósito, me chamo Teron, Obadian Teron.