quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Sangue e Fogo

Durkan saiu de seu aposento seguido de Andivari e encontrou Drurkali e os dois seguidores de Andivari com mais uma nova figura distinta, o meio-elfo Guntz. Verbena estava com a espada sacada e olhava para Vladslav como quem não soubesse o que fazer. Guntz recuperava o folego enquanto que Vladslav e Drurkali olhavam um para o outro como quem está prestes a deixar as diferenças de lado para enfrentarem uma peleja maior.
Drurkali, temos que salvar o rei. Prometi a Crane e seus irmãos que cuidaria de seu pai. _Disse Durkan enrolando as correntes de combate estrategicamente eu seus braços.
Vamos com eles. Tentaremos salvar o máximo de pessoas no caminho. _Dizia Andivari a seus companheiros. _Mas estejam cientes que esta batalha já está perdida. O inimigo já adentrou os portões da cidade e a guarda foi imprudentemente desfocada quando Crane e seus irmãos reuniram os soldados para marcharem contra Hellin-Odel.
Enquanto corriam por corredores longos e sombrios, os seis ouviam gritos de dor e pavor atravessando as paredes maciças do castelo. Vez ou outra, os corredores eram iluminados por tochas que ficavam nas laterais da parede. Quando passavam correndo por elas, as sombras emitiam imagens fantasmagóricas na parede que unindo se aos gritos e gemidos vindos do outro lado, criavam um cenário dantesco.
Ao findar o corredor, depararam com o enorme salão onde outrora havia sido festejado o aniversário da falecida princesa Kathrina. Bancos de madeira estavam tombados pelo salão. Uma grande mesa de madeira havia sido tombada provavelmente para servir de proteção aos três soldados que agora jaziam cravejados por flechas. No canto esquerdo do salão uma labareda começava a se formar ao pé da cortina. Indiferente a tudo isso, um grupo de soldados abusava de uma jovem que soluçava em apuros. Dois homens a segurava pelos braços enquanto que outro, gordo de barbas ruivas e dentes amarelados, gargalhava enquanto a penetrava por trás. Sua gargalhada deu lugar a um som hediondo quando Drurkali esmagou seu crânio com um golpe de duas mãos que fez os olhos do soldado saltarem de suas órbitas. Os outros dois olharam com espanto o gigante negro surgir por trás do corpo de seu falecido companheiro de guerra, mas antes mesmo de alcançarem as suas armas, Vladslav e Andivari caíram sobre eles com fortes golpes de espada. Um teve a cabeça separada do corpo e o outro teve apenas tempo de soltar um grito de pavor que foi abafado com engasgos de sangue que fluíram de sua boca quando a espada de Andivari atravessou seu peito. Verbena retirou sua capa e entregou a assustada moça que estava com o vestido destruído.     
_Não se preocupe linda jovem. Está tudo bem agora. -Falou Guntz com a voz carregada de compaixão. _Nós vamos tirá-la daqui. Qual é seu nome?
Durkan estava encostado à quina da porta que dava para o pátio. Olhava com cuidado o ambiente hostil lá fora. Andivari se aproximou e também olhou. Soldados corriam atrás de cidadãos comuns e os matavam sem misericórdia. Os poucos que tentavam ainda criar uma resistência eram massacrados. As chamas se espalhavam pelas casas. Sangue escorria pelas ruas. Soldados montados a cavalos perseguiam cidadãos desesperados. Do outro lado do pátio a porta de um castelo se abriu. De dentro saiu um homem altivo, com uma armadura negra e ombreiras em forma de caveiras. Logo atrás dele surgiu o rei Cronder com as mãos amarradas sendo escoltado por cinco soldados com armaduras completas. As armaduras eram negras e polidas e usavam um manto branco por cima delas. O rei possuía um corte na cabeça por onde o sangue escorria sujando suas vestes de linho. Sua coroa estava na mão do primeiro soldado que saiu. Um soldado correu em uma direção e minutos depois um grupo de aproximadamente sessenta cavaleiros apareceram fazendo barulho e levantando poeira com os galopes de suas montarias. Os homens trocaram algumas palavras e logo acorrentaram o rei. Em seguida cavalgaram em direção à praça principal.
_Temos que salvá-lo. –Disse Durkan. _Estão o levando para a morte.
_Não a nada que possamos fazer Durkan. –Afirmou Andivari.
_Desde quando se tornou um covarde Andivari. É por isso que não presta lealdade a nenhum rei ou senhor? _Por isso se tornou um cavaleiro andante?
_Não seja tolo. Não podemos lutar contra um exercito inteiro.
_A morte me acompanha. E se hoje for o dia em que ela me apanhará que assim seja. –Afirmou Vladslav erguendo a espada acima da cabeça.
_Pelo menos um entre vocês possui colhões. As moças podem se esconderem se quiserem, mas eu prometi proteger o rei e é isso que farei.
_Não seja impulsivo Durkan. Você irá matar a si mesmo e a todos nós. - Manifestou Verbena.
_Meu senhor, eu creio que eles estejam certos. – Eu jurei protege-lo e é o que farei. –Falou Drurkali- Mas se formos em direção ao rei é morte certa.
De repente a jovem molestada se aproximou deles e disse:
_Por favor, salvem minhas crianças. Estávamos todos no templo de Iévine quando os soldados atacaram. Antes de me pegarem, eles violentaram outras moças e as crianças eles jogaram nos subterrâneos do templo e trancaram-nas lá dentro. A última vez que vi o templo ele estava começando a pegar fogo.
_O rei já está condenado Durkan, mas podemos salvar estas crianças.
Durkan lançou um olhar imparcial a cada um deles. Então olhou a jovem enrolada na capa de Verbena. Ela estava com hematomas no corpo e lágrimas nos olhos.
_Sabes que estas crianças podem já estarem mortas. –Afirmou.
_O rei também. –Retrucou a moça.
_Vamos. Mostre-nos o caminho.
Os sete saíram correndo beirando as paredes e aproveitando a camuflagem da fumaça. Passaram por entre becos sujos e ruas vermelhas com corpos espalhados pelo chão. Por fim estavam diante de um enorme templo, com uns vinte metros de altura. A parte lateral esquerda já estava toda dominada pelas chamas e começava a desmoronar fazendo um estrondo como um trovão.
_Entrar aí sim é morte certa. –Pestanejou Durkan.
_Por favor. Os calabouços do templo possuem um caminho que leva para fora da cidade. Temos que tentar encontrar as crianças e sair por lá. –Choramingou a moça.


_Muito conveniente de sua parte dizer isto moça. –Resmungava Durkan quando Andivari e seus amigos passaram por ele.
_Vamos. –Dizia Andivari. _É nossa melhor chance.
_Quem é o covarde agora hein?!- Provocou Guntz, o meio-elfo.
Quando entraram no salão principal sentiram o sangue ferver por causa do calor. A moça correu por entre os escombros e sumiu na fumaça. Guntz e Verbena a seguiram tampando o nariz com a palma da mão para não inalarem muita fumaça. Logo atrás deles estavam Andivari e Vladslav.
_Esperem. –gritou Durkan adentrando no aposento acompanhado de seu guarda Drurkali. –Nós também iremos.

O fogo subia pelas paredes e se espalhava pelo teto. O calor era insuportável. Um barulho ensurdecedor foi causado pelo desmoronamento de uma coluna e os sete personagens sumiram entre as chamas, fumaça e poeira.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Com a face na areia.

O Comandante Sinclery observava emudeço o desenrolar do ataque. Viu em silencio quando o general Obadian Teron ordenou para que os porta-bandeiras erguessem as bandeiras de aliança. Observou enquanto o velho general Teron escolhia a dedo os homens que seriam os mensageiros. Aguardou junto com o velho enquanto os portões da grande cidade eram abertos. Quando teve espaço os suficientes para passar uma tropa da cavalaria, rapidamente invadiram a cidade. Como formigas eclodindo de um formigueiro recém destruído, os soldados avançaram deixando os poucos guardas de Shadarph atônitos e confusos.  Quando um soldado de Shadarph tentou organizar uma linha defensiva, rapidamente foi silenciado pelos arqueiros markdenos. O povo de Stavianath era um povo guerreiro. Principalmente o povo de Shadarph. Mas a maioria dos guerreiros havia partido em marcha contra Hellin-Odel acompanhando os príncipes guerreiros em busca de vingança. Na cidade só haviam ficados soldados velhos demais ou jovens sem experiência em combates.
Sinclery sabia que seria um massacre. Em várias cidades de Stavianath estavam acontecendo os mesmos ataques. Na décima quinta hora do dia. Quando Álax já brilhasse no céu, o ataque ocorreria. Ao findar da luz, quando as trevas novamente abraçassem o mundo, todas as grandes cidades de Stavianath já teriam sido subjulgadas. Ele não gostava deste plano. Era desonroso e trazia vergonha para seu povo. Também era ciente que a população de Markden, em sua grande maioria não concordava com o ataque a seus vizinhos e até pouco tempo atrás, seus aliados. Muitos foram os soldados que não aceitaram o comando do rei por terem amigos e familiares entre os Stavianathos. Mas estes foram convencidos a lutarem pelos interesses do rei sob a ameaça de serem acusados de traição caso não concordassem. O rei falara aos seus conselheiros sob a confirmação de um suposto golpe que ocorreria em Markden. Contou algo sobre um plano dos Stavianathos de dominar todos os reinos circunvizinhos. Que depois de vencerem Hellin-Odel, Markden seria o próximo reino a sofrer a ira dos Stavianathos. Era bem pouco provável que isto fosse verdade, mas como que por bruxaria, todos do conselho concordaram que esse era o melhor momento para atacar os Stavianathos e evitar que futuramente o reino de Markden fosse destruído.
Obadian parecia estar gostando de tudo aquilo. Perseguia homens em fuga e os matava com golpes de machado nas costas. Estuprava donzelas e depois as entregava a seus homens para que também compartilhassem de sua fenda recém-deflorada. Muitos eram os que possuíam sua sede de sangue e luxuria. Em sua maioria os soldados eram compostos de jovens guerreiros. Imaturos e despreocupados com o significado da honra. Em seu intimo desejava que os grandes guerreiros de Stavianath estivessem na cidade. Gostaria de ver alguns daqueles “soldados” enfrentarem uma batalha de verdade.

Sinclery ordenava aos seus homens que poupassem a vida de mulheres e crianças e também os velhos demais que não apresentavam ameaça. Mas Obadian dizia que se as crianças fossem poupadas, cresceriam com ódio no coração e os velhos de nada serviam. Dizia que as mulheres deveriam ser poupadas somente enquanto eram úteis. Por um momento questionou os métodos de Obadian, mas ao ser defrontado observou que os soldados ficariam ao lado de Obadian, pois este possuía a maior patente e seus métodos eram mais interessantes aos remendos de gente que agora enojavam Sinclery.
_Ousa me questionar rato vermelho? –Obadian falava em tom ameaçador com seus dentes amarelos á mostra e o hálito de cerveja tirando o ar de Sinclery. _Se acha mais nobre do que eu? Julgas que eu não sei comandar uma legião de soldados? Ou estás com pena destes metidos a valentes? Cadê a valentia deles agora? _Gritou alto olhando para o monte de prisioneiros amontoados na praça central.
Nesse momento soldados trouxeram à presença de Obadian o rei de Stavianath, Cronder. O rei estava acorrentado e possuía um corte na cabeça por onde o sangue não parava de escorrer.
_Ora, ora, finalmente eu tenho o privilégio de conhecer o “bravo” rei Cronder. Pois me diga rei... Onde está tua braveza?
_O que significa isto? Porque nos atacaram? Vieram até meus portões como aliados. O teu rei saberá desta desonra, cão. –Vociferou o rei Cronder, que apesar de velho, possuía uma voz que se fazia potente.
_Hahahaha! O meu rei saberá? Hahahaha... Obadian gargalhou e os soldados o seguiram nos risos.
_Estou aqui a mando do rei Keiran Dehildren, senhor das terras de markden. Que por sinal era seu amigo...-Falava Obadian enquanto desmontava seu cavalo. _ Amigo que você e seus filhinhos estavam dispostos a trair. _Chutou a face do rei Cronder que caiu ao se desequilibrar provocando um baque quando seu rosto bateu no chão.
Obadian Teron pisoteou o rosto de Cronder e o manteve com a face espremida no chão arenoso. O sangue do ferimento da cabeça se misturava com o novo corte no lábio superior do velho rei que tossia arquejando. Ao fazer menção de socorrer seu rei, um prisioneiro foi imediatamente morto por uma lança que atravessou seu peito provocando um jorro vermelho. Mulheres e crianças gritaram amedrontadas enquanto os soldados os golpeavam com o cabo das lanças ordenando-as calarem.     
_O próximo que interferir será crucificado. –Gritou um dos comandantes aos prisioneiros.
_Não faz muito tempo, Sua majestade promoveu o grande espetáculo decapitando um suposto traidor. -falava Obadian mantendo seu riso sarcástico. _Pois bem, o que “Vossa Majestade” acha de ser o protagonista do espetáculo de hoje? Homens o tragam até a praça principal.
Sinclery não sabia o que se passava no coração de Cronder, mas viu no rosto do rei a sombra do medo. Mesmo que se mantivesse em silencio, o seu corpo gritava a verdade. Estava tremendo e seus olhos estavam esbugalhados. Quando por fim abriu a boca, já com a cabeça posta sobre o pedestal foi apenas para gritar pragas e maldições. Feito um prisioneiro condenado o rei Cronder foi morto.

Cronder, o Bravo, morreu gritando maldições e com medo nos olhos. Não houve bravura em sua morte. Apenas terror e lamentações. Sua cabeça foi colocada numa estaca acima do portão oeste da cidade de Shadarph, capital do reino de Stavianath.

sábado, 13 de setembro de 2014

Injustiças

Durkan estava inquieto em seu aposento particular oferecido pelo rei Cronder durante sua estadia em Stavianath. Um salão enorme e aconchegante. Com tapetes de peles de leopardo no chão, incensos aromáticos pairando no ar e cortinas brancas com belas imagens pintadas a mão por famosos artistas markdenos. Ao lado direito do recinto, entre duas pilastras douradas, duas mulheres mulatas se divertiam entre risinhos amontoadas em almofadas de plumas de ganso e lençóis de seda. Seus corpos brilhavam devido o óleo perfumado que havia sido passado por elas mesmas. Os olhos amendoados e os lábios carnudos eram um convite para o prazer. Prazer que Durkan parecia desprezar naquele momento. Agarrado em sua taça de vinho, bebia cada gole com mais ânsia que o anterior.     
_Venha para junto de nós meu senhor. – chamou Zíbia, a moça mais alta dentre as duas concubinas de Durkan.
_Sim, meu amado. Nós estamos ardendo de desejo. –Falou a outra com a voz sibilante. Monnah era seu nome. Possuía os olhos levemente puxados e argolas douradas nas orelhas.
_Pois que ardam nos infernos de Bel. –Vociferou Durkan. _Saiam daqui. –disse com a voz carregada de desprezo.
O Cananor

As duas levantaram correndo e envergonhadas dirigiram se a porta. Do lado de fora encontraram o gigante Drurkali, imóvel como uma estátua, ao lado da porta. Ele olhou para as moças com um olhar piedoso. Embora somente quem o conhecesse de longa data teria percebido.
De frente a uma enorme janela com vista para a muralha antes do mar, Durkan permanecia vislumbrando a vista da estrela Álax se pondo no mar. Era o fim de um dia rubro. O seu inimigo havia sido morto naquela tarde e a mulher que ele tanto havia desejado havia sido vingada. A “justiça” havia sido feita. Mas porque então aquela estranha sensação que parecia lhe embrulhar o estômago?
Durkan que estava com o dorso nu, passou a mão na enorme ferida em seu peito que estava por findar o período de cicatrização. Começou a relembrar da noite em que Gamblior assassinara Kathrina. Tentara impedi-lo de fugir, mas o golpe que sofrera havia sido grave. Quando Drurkali chegou e pôs a socorrê-lo, tentou ordená-lo para perseguir o assassino, mas suas palavras saíram apenas como balbucios inteligíveis. Pela manha, mesmo com a reprovação dos médicos e de seu curandeiro particular, partiu em viagem junto com os irmãos de Kathrina para capturar Gamblior. Quando eles encontraram Gamblior e seus soldados, lutou contra a guarda de Gamblior e matou muitos soldados. Estava possuído pela fúria. Sua ferida reabrira no calor da batalha e ele nem percebera. Quando retornaram para Stavianath com Gamblior como prisioneiro, sentia dores terríveis. Teve que ficar de cama por dias lutando contra a febre que o assolou. Quando os irmãos de Kathrina partiram para pelejar contra os Hellins não pode ir, pois estava prostrado numa cama.
Durkan foi acordado de seu devaneio com o som de uma discussão que vinha do corredor. Ao abrir a porta viu Drurkali segurar uma moça pelo pescoço e praguejar contra um homem corpulento enquanto outro homem já rolava no chão de dor devido a um golpe que lhe fora desferido no abdômen.  Logo percebeu se tratar de Andivari e seus companheiros.
_Eu disse que ninguém vai passar! –gritou Drurkali arremessando a moça em cima de Andivari que com maestria apoiou o corpo da jovem e conseguiu impedi-la de se chocar contra o chão.
 Vladslav que se recuperava do golpe que recebera no abdômen, levantara do chão e já possuía a espada em riste nas mãos quando por fim Durkan interveio.
_ O que está acontecendo aqui?
_Eles queriam incomodá-los meu senhor. O jovem loiro quis passar por mim e eu o impedi. –respondeu Drurkali com sua voz de trovão. –Ninguém passará a não ser que o senhor permita.
_Você precisa saber ouvir umas verdades maldito. – vociferou Vladslav.
_Não fale comigo como se eu você qualquer um, seu carrapato de vira-latas. –Durkan ergueu o peito como um galo de briga enquanto falava. –Eu sou Durkan, príncipe de Cananor, filho de Hurlan, Rei das dos mares de areias e de sal. Não permitirei ofensas vindas de ninguém. Fale assim de novo e o enforcarei com minhas próprias mãos.
_Veremos então... cana.. .
_Parem. –gritou Andivari intervindo. –não viemos aqui para pelejar. Apenas queremos esclarecer algumas questões. Pois enfrentamos o perigo em florestas sombrias para inocentar Gamblior e nem ao menos esperaram por nossa chegada.
Refletindo nas palavras que soaram como um pedido de compreensão e notando uma cicatriz que Andivari agora trazia no rosto, Durkan finalmente acalmou-se e disse:
_Deixe que Andivari entre. Os outros dois aguardem aqui fora. –virou as costas e adentrou no seu quarto.
_Senhor... Murmurou Verbena, a moça que havia sido arremessada por Drurkali.
_Tudo bem Verbena. Fique aqui com Vladslav e me aguardem.
Quando Andivari passou pela porta, Drurkali se pôs na frente da porta como uma muralha negra.
Durkan estendeu a mão até um odre de vinho e serviu uma taça ornamentada com joias e após estendê-la a Andivari completou sua própria taça.
Então... o que verdadeiramente vieres procurar aqui?-perguntou o Cananor. –Sabes que o que eu tinha de dizer eu já disse no julgamento.
Esse julgamento foi injusto. –protestou Andivari. –Vocês não deram o direito ao...
_Injusto? –Gritou Durkan. –vou te falar de injustiça. Injustiça foi aquele animal tirar a vida da bela Kathrina. Uma jovem cheia de vida. Injusto é quando todo o povo de uma nação sofre a perda de uma amada e bondosa princesa... eu... amava aquela mulher.
_Amava? –questionou Andivari falando ao mesmo tom de Durkan. – O que sabes de amor? Estava agora a pouco rodeado de mulheres. Sempre esteve. É bem sabido em todos os reinos que possui mais esposas do que se pode manter em um único castelo. Falas-me de amor, mas tudo o que via na adorável Kathrina era a aparência. Mas meu caro, a aparência é passageira. Seja ela bela ou feia. É quando a morte come a carne de nossos ossos é que vemos que somos todos iguais. Mas Gamblior... -entristeceu ao pronunciar o nome do falecido amigo. – esse sim amava Kathrina. Viajei com ele durante dias e todas as manhas ele falava de Kathrina. Contou-me suas historias de amor. Ele não tinha olhos para outra mulher. Havia muito tempo que eu não via aquele olhar. Olhar de quem ama. Mas o que ocorreu com ele foi uma injustiça. A sim, uma injustiça digna de ser chamada de ira dos deuses. Não bastasse a dor da perda de seu amor ainda é acusado de assassiná-la. Diga-me Durkan?! –Andivari segurou o pescoço de Durkan e o apertou contra a parede. Nós fomos atrás de Lecain, aquele que possui a visão do passado e do futuro. –Andivari aumentava a voz à medida que falava. – Ele disse que você estaria confuso e atormentado por algum fantasma em sua mente. Esse fantasma seria a resposta. Diga o que tem lhe atormentado? Diga.
Andivari vociferava alto e espuma escorria de sua boca. Durkan estava atônito. Olhou o rosto de Andivari que possuía uma recente ferida que lhe cortava a face do alto da testa até abaixo do nariz, no lado esquerdo. A ferida possuía uma vermelhidão dolorosa até de vê. _A cicatriz... –balbuciou por fim.
_O que tem ela? Eu a ganhei enfrentando uma criatura na floresta. –Comentou Andivari sem soltar o pescoço de Durkan. –enquanto buscávamos por Lecain. Não mude de assunto Cananor. O que o atormenta?
Durkan de um forte empurrão em Andivari o obrigando a largar lhe o pescoço. Deu um gole no vinho e começou a dizer. _A cicatriz... -sentou se numa cadeira. –lembro-me que na noite que Kathrina foi assassinada eu lutei contra seu assassino. Estava escuro, mas eu reconheci a fisionomia de Gamblior. Era ele, eu sei. Eu o ataquei com minha corrente. As três pontas mortíferas cortaram o ar em sua direção. Lancei as em sua direção como sempre fiz. Miro o seu rosto para tirar lhe os reflexos com uma ponta e com as outras duas miro seus órgãos vitais. As três pontas o acertaram. Uma no peito e outra no abdômen. Mas não foram fatais. Ele conseguiu desviar...
_A terceira ponta? A que foi direcionada ao seu rosto?- questionava Andivari-.
_O acertou. Teria deixado uma cicatriz como esta sua. –Confessou Durkan.
_Mas em momento algum Gamblior apresentou cicatrizes no rosto. –Falava Andivari indignado. Não é mesmo?
Nesse momento ouve um estrondo vindo da rua. Os dois se entreolharam. Ouviram gritos e cascos de cavalos batendo forte no chão de pedra. Muitos cavalos.
Do lado de fora Drurkali estava confuso com a chegada escandalosa de um pequeno homenzinho de cabelos vermelhos e feições quase que femininas para seu gosto.
_Vesser, o que está acontecendo? –perguntou lhe Verbena.
_O jovem mestiço de humanos com os senhores do ar estava mais pálido do que o naturalmente era.
_Acalme-se. –Vladslav já estava ficando impaciente.
Vesser Guntz estava arfando nas palavras quando por fim conseguiu falar. _Nas ruas, soldados para todos os lados. Matando, pilhando e saqueando. Não estão poupando nem crianças. –seus olhos estavam lacrimejados de pavor. Por fim, concluiu. _Estamos no meio de uma guerra.

Dentro do aposento Andivari e Durkan olhavam fixos para as ruas do auto da sacada. Correria, gritaria e explosões. Sangue, morte e dor. _Guerra. –murmurou Andivari.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Condenado antes de ser julgado.

Enquanto Gamblior era arrastado pelos dois guardas de faces severas e armaduras de metal polido que refletiam o brilho de Álax em seus olhos naquela manhã clara, tentava em vão caminhar ereto, com a força de seus próprios pés. Contudo a força de seu corpo já o havia deixado há dias. Andivari e os seus companheiros não regressaram com as provas de sua inocência.
_Amável Andivari, eu sei que tinha boas intenções, mas para esse povo, eu já fui condenado mesmo antes de ser julgado. _Pensava Gamblior enquanto era arrastado até a praça onde seria julgado. Enquanto era arrastado pelas ruas pavimentadas com blocos de pedras acinzentadas pensava no estranho visitante que recebera em sua cela duas noites atrás.
“_Você será julgado amanhã. Só existe uma maneira de sair vivo daqui. Alegar que és um escolhido do deus vermelho e que nem mesmo a morte poderá detê-lo. E que se fores morto, retornarás da morte e todos que estiverem presentes naquele momento também serão mortos antes que Erius e Fabus sejam vistos juntos novamente nos céus.” _Disse o homem magro e alto, com uma barbicha pontuda e negra que possuía um acentuado odor de óleos aromáticos.
_Que loucura é essa? Quem é você e quem é esse deus vermelho? Por acaso viestes até mim zombar de minha situação? _Questionou Gamblior aproximando se das grades para ver o homem que viera visita-lo.
O estranho homem observou Gamblior sem expressar qualquer tipo de emoção em seu rosto esquelético. Gamblior que sempre fora esbelto encontrava se magro, com as veias e os ossos a lhe saltarem da pele branca. Seu cabelo, que outrora reluzia como ouro, estava opaco e ressecado. Havia passado três meses desde que ele fora capturado. Seu pai provavelmente já sabia de sua situação ao menos há um mês e estava fazendo seis dias que Andivari partira atrás de um bruxo que diziam ser o único que poderia provar sua inocência, pois acreditavam que o tal bruxo era capaz de ver tanto o passado quanto o futuro.
_Não importa quem eu sou. Saiba apenas que sou conhecido de seu pai e o deus vermelho é o verdadeiro deus adorado por teus antepassados.
_Meu pai? Ele virá em meu socorro? Ouvi rumores que os Stavianathos partiram em direção a Hellin-Odel para guerrearem contra nosso povo.
_É verdade. _Disse o homem acariciando a barbicha. Mas não se preocupe com isso. Apenas lembre se do que falei. O estranho homem virou sob os calcanhares e saiu depressa sem olhar para trás nem mesmo quando Gamblior gritou por ele.
Agora Gamblior estava amarrado na estaca que ficava na praça central. Era de costume os criminosos serem amarrados sob os fortes raios de Álax antes de um julgamento. “Para clarear as ideias e não mentir.” Diziam. Mas a verdade era que depois de ficarem horas sem sequer uma gota d’água muitos perdiam a razão.
Horas passaram e Gamblior ficou inconsciente por um tempo indeterminado. Quando acordou o céu estava rubro e a praça estava cheia. O rei estava presente sentado sob uma cadeira acolchoada feita de veludo azul com bordas em linhas de ouro. Ao seu lado estava um sacerdote de Bël-Teancun para condená-lo, uma sacerdotisa de Iévine para defendê-lo.
Gamblior não conseguia entender nada do que diziam. Sua mente estava em outro lugar... Os balbucios de Durkan eram inteligíveis para ele. O rei parecia apenas se agradar do desfecho do julgamento. Coçava a barba cinza enquanto olhava Gamblior dependurado sobre o peso do próprio corpo amarrado a estaca. Por um momento julgou ver Andivari na multidão tentando abrir passagem aos empurrões e cotoveladas. Já não tinha mais forças quando entendeu que o julgamento terminara. Homens fortes o seguraram pelos braços após o desamarrarem. Olhou ao redor para toda aquela multidão em fúria. Gritando palavras de ódio contra ele. Gamblior lembrou-se de Kathrina. De sua beleza e de sua voz. Sua mente viajou no tempo e lembrou se de quando se beijaram pela primeira vez. Caia uma forte chuva e os dois correram para debaixo de uma sacada em uma das muitas existentes na capital de Hellin-Odel. Os dois reis tinham negócios a tratar e o jovem Gamblior ficara incumbido de acompanhar a jovem princesa. Os dois já estavam bastante molhados após terem corrido pelas ruelas da cidade debaixo da chuva para fugirem dos guardas encarregados de vigiarem os dois. Quando ficaram finalmente a sós, Gamblior mais que depressa a apertou em seus braços de encontro à parede e a beijou. Ela não demonstrou relutância e com a mesma voracidade retribuiu lhe o beijo. Os lábios de Kathrina tinham sabor de maças embebecidas no mel. Desde aquele momento Gamblior se apaixonara e sempre acompanhava o pai nas viagens a Stavianath. Mas agora Kathrina estava morta. Brutalmente assassinada. Na flor da sua juventude. E a multidão gritava que ele era o culpado. Uma parte de seu coração também o condenava. _Eu sou culpado! _Pensava. _Não devia ter desistido dela. Devia ter ficado e protegido ela. Ela me amava também. Mas agora nada importava.
Quando Gamblior viu o carrasco se aproximar arrastando uma espada bastarda  na pedra cinzenta ao chão, sua mente retornou ao presente. Quis gritar, mas não tinha forças. Lágrimas escorreram em seu rosto. Lembrou se das palavras do estranho visitante da noite anterior. 

_ Nem mesmo a morte... Vacilou nas palavras. Não tinha forças para dizê-las. Quando abaixaram sua cabeça sabia que o fim estava próximo. Tentou imaginar Kathrina o esperando em um belo jardim. Sua garganta estava seca demais. Sentia muita sede e lhe faltava ar. Por um momento viu pessoas sendo banhadas com sangue. Então tudo se escureceu e nada não existia mais.



quarta-feira, 30 de julho de 2014

Nem mesmo a morte...

O dia amanheceu cinzento mais do que de costume. Fandron acordou com a sensação de despertar de um pesadelo. Por várias vezes uma sensação de desespero invadia sua mente. 
“_Meu filho está morto. Meu amado filho.” _ O pensamento não lhe saía da cabeça como se fosse as únicas palavras que conhecia. A imagem do mestre mensageiro entrando na sala do trono com o rosto pálido e entristecido ainda estava fixa em sua mente. Não sabia que horas fora dormir, mas o sono não lhe trouxe descanso.
Fandron estava em silencio diante da mesa. Sequer tocara na comida. Seus generais falavam eufóricos sobre como deveriam vingar a morte do príncipe. Alguns defendiam a ideia de um ataque frontal e maciço aos muros das principais cidades. Outros diziam para terem cautela, pois os exércitos Stavianathos estavam avançando em direção ao reino. Vinham pela “estrada verde”, passando pelas bordas de Linéfil.
_Alguns aldeões para lá da cordilheira relatou-me que os povos selvagens estavam migrando para as montanhas. Isso quer dizer que realmente um grande exército está avançando. _Comentou Helmer, um dos generais mais velhos na mesa. O rosto severo e duro feito pedra não escondia lhe a preocupação estampada na face.
_ Logo estarão no caminho das montanhas._Fez notar Fayder, o mais robusto dentre eles.
 _Devemos levar nossos melhores homens para lá e quando eles chegarem, nós já estaremos os esperando com as laminas prontas para lhes cortarem a carne.
_As estradas das montanhas possuem vários pontos elevados com nossos arqueiros devidamente posicionados. Não tem como eles passarem por lá.
_Eu discordo, Rycon. As flechas uma hora hão de acabar e aí será questão de tempo ate matarem todos os arqueiros. Devemos é enviar nossos homens para a estrada das montanhas e a atravessarmos para atacá-los antes que eles cheguem até ela. Ganharemos com isso a vantagem do terreno elevado. _ Berrou Fhuegor enquanto um fio de licor lhe escorria sobre a barba loura e espessa.  
O rei observava seus generais discutirem seus planos sem nada dizer. De alguma forma ele sabia que aquele dia chegaria. O dia em que teria de encarar a consequência de suas escolhas sem poder fazer nada a respeito. Quando se levantou da mesa seus generais o encararam assustados.
_Desculpem-me companheiros, continuem sem mim. Preciso descansar, pois não dormi bem esta noite.
O que se seguiu foi uma abundância de cumprimentos e formalidades por parte dos generais.
O rei saiu do imenso salão em direção as galerias leste. As galerias leste eram poucas vezes visitadas, pois ficavam em uma parte aonde o brilho de Álax não chegava devido à sombra projetada da grande montanha ao fundo do castelo. O rei caminhou por entre as frias fileiras de colunas feitas de mármore e com detalhes em Tolnd prateado. Olhava para os lados como quem se certifica que não está sendo seguido. Fandron passou por umas nove colunas depois que atravessou o portão principal e caminhou uns vinte passos em direção ao imenso jardim que se estendia a sua frente parando logo em seguida, aos pés de uma imensa pedra cristal que brotava do chão por entre flores rasteiras e gramas verdejantes.
_É verdade? Meu filho está morto?_ Perguntou o rei em voz alta.
Logo um vulto apareceu no jardim revelando em seguida à presença de um homem esguio coberto por um manto verde musgo. Seus olhos eram sombrios como os olhos dos homens do deserto e suas feições possuíam o ar de superioridade dos estudiosos da bruxaria.
_Tu já sabes a resposta, caro rei. _Disse o homem afagando a escura barbicha. _O preço lhe foi cobrado. Sim seu filho está morto. Seu filho está morto mais o outro ainda vive. O seu herdeiro legitimo ainda vive. Ele sempre viveu. E agora que o destino acertou suas engrenagens, ele se tornará uma lenda.
_Não sei se posso chamá-lo de filho. Não o vi crescer. Não compartilhei suas alegrias e tristezas. Não o ensinei a lutar ou até mesmo a moldar o Tolnd.
_Mas irá chamá-lo de filho. Sim. Tu irás. E ele liderará teus exércitos rumo à vitória. Você esmiuçara Stavianath e a terá aos teus pés. Irás controlar todo comercio de armamentos e ornarias em metais. Hellin-Odel será o reino mais rico do continente. Pois assim o prometi e assim será.
Assim como apareceu o misterioso homem se foi. Como um vulto ou uma ilusão que nunca realmente existiu.
Quando Fandron se deu por si, ele estava ajoelhado apoiando sob o cabo de sua espada. Uma forte chuva caia sobre seu corpo. Uma chuva pesada que encharcava-lhe o corpo da cabeça aos pés. Quando finalmente voltou ao castelo os servos puseram se a correr buscando toalhas para secá-lo e preparando um banho quente com poções aromáticas.
Mais tarde, ao entardecer, enquanto meditava sentado em seu grande trono um mensageiro lhe foi anunciado e ao receber o homem notou-lhe o espanto no rosto.
Fandron
_Meu senhor... _Dizia o homem. _ Os soldados enviados a Stavianath como espiões regressaram. E senhor... “ele” está vivo. O príncipe Gamblior está vivo. Louvado sejam os deuses. Ele vive senhor.
_Sim. Resmungou o rei. _Nem mesmo a morte poderá impedir o herdeiro de Hellin-Odel.
O mensageiro não compreendia a falta de emoção do rei com a notícia da chegada do filho que supostamente havia sido executado.
_Meu rei, o que será feito de Guedron? Aquele que nos trouxe a falsa noticia de que o príncipe havia sido decapitado em praça pública em Stavianath? Trazendo-nos um temor e dor desnecessária? _Questionou o velho ancião, chefe bibliotecário que tinha por hábito seguir todos mensageiros, aproveitando se do livre acesso aos salões reais concedido a ele pela estima do falecido pai de Fandron.
_Envie ordem para que ele seja decapitado como falsamente alegou que meu filho estava._Dizia o rei.  _E que seja condenado ao mesmo destino todos aqueles que ousarem pronunciar que Gamblior está morto. Agora tragam meu filho, pois desejo revê-lo.

Apesar da alegria de todos  com a notícia de que o príncipe ainda estava vivo, a expressão facial de Fandron não coincidia com os fatos. Em seu rosto estava figurado a expressão de um homem triste e preocupado.

domingo, 20 de julho de 2014

O Prisioneiro

                                               Essa estória se passa após os acontecimentos da estória "Na beira do fosso." 



Gamblior estava com a garganta ressecada por causa da sede. Caminhava atrás da milícia de Crane e seus irmãos. Atrás de si a tropa de Stavianath se estendia. Para onde olhava via olhares revoltosos e ouvia insultos de ambas as partes. Vez ou outra Durkan olhava para trás com os olhos vermelhos e raivosos. Mas, Gamblior obsevara uma pequena mudança naquele olhar. Uma sombra pairava no rosto de Durkan. Uma sombra de dúvida.
Durante grande parte da jornada Gamblior caminhou com fome e sede. Não lhe davam alimento. E apenas no fim da tarde permitiam ele saciar um pouco da sede. Era Adrien, o irmão mais novo de Crane que lhe entregava o cantil. Mesmo sob os protestos dos outros dois irmãos.
 “_Esse infeliz matou nossa irmã, Adrien. Como pode ter compaixão desse maldito?” _Praguejava Crane.
“_Nosso pai quer que ele tenha um julgamento, Crane. De nada adiantará leva-lo ao tribunal de Stavianath se ele chegar lá morto.”
_Obrigado. Falou Gamblior após solver sofregamente cada gota d água que lhe fora dada. 
_Não pense que me apiedo de ti cão. Apenas não quero que morra de sede. _Respondeu rispidamente Adrien.
_Da próxima vez lhe daremos urina para beber, porco. _Insultou Cron cuspindo-lhe na face.
Gamblior jamais havia sido tão humilhado em sua vida. Acostumado com os cortejos da realeza, ele sentia se indignado por ser tratado daquele jeito. Mesmo se ele fosse culpado acreditava que nenhum homem poderia ser tão humilhado. Principalmente um homem com sangue nobre nas veias. Para a infelicidade de Gamblior, os stavianathos não diferenciam nobres ou plebeus na hora de serem rígidos com seus prisioneiros.
Ao chegar à cidade, muitos cortejaram os príncipes e seus soldados por terem capturado Gamblior. Todavia quando se dirigiam a Gamblior era com insultos ou para remessar coisas em sua cabeça. E pensar que dias atrás esse mesmo povo o saudava calorosamente. “_Assassino...” “Matem esse cão.” _Gritava a multidão. Os soldados tiveram que fazer uma barreira para impedir que a multidão agarrasse Gamblior e o matassem ali mesmo.
O jogaram em uma cela fria. Sem cama ou coberta. Apenas um chão duro feito mármore como cama. Tinha uns três metros de largura por dois de comprimento. No fim da cela havia uma latrina cheia de moscas que exalava um cheiro horrível.
 Gamblior não sabia quanto tempo havia passado desde que chegara. A cela dava frente para um longo corredor por onde havia uma galeria de celas e nenhuma delas tinha janelas por onde pudesse entrar a luz. Se fosse dia ou noite, nenhuma diferença fazia para ele. O frio noturno trouxe lhe uma febre que quase o matou por duas noites seguidas. Às vezes adormecia e sonhava com Kathrina. No sonho ela o chamava pelo nome. Ela corria por um bosque verdejante e ele corria atrás. Seu vestido azul esvoaçava ao vento e ela sorria alegremente. Ele também corria atrás dela rindo E quando ele a alcançava e a puxava para seus braços ela estava com um olhar aterrador. De medo e pavor. Seu vestido azul começava a encharcar se de sangue até ficar totalmente vermelho e então ela pendia de seu corpo como se tivesse partido ao meio. Gamblior acordava gritando e suando frio.
Certa vez o rei Cronder foi ter com ele. Apesar de velho, o rei sempre tivera um porte ereto e viril. Porem agora ele andava cabisbaixo e fraco. Seus olhos estavam fundos em suas cavidades e uma sombra pairava sobre sua face. A sombra da angustia e do luto.
_Ela o amava. Você sabia disso? Resmungou o rei. _Eu só queria salvá-la. Não sei por que não mandei mata-lo assim que Lecain me advertiu do destino de minha filha perto de você. Não quis acreditar... acho. Será que você e teu pai queriam apenas um motivo para guerrear? Quando decidimos comercializar o Tolnd com os habitantes de Turom vocês ficaram assim tão ofendidos?  “SE QUERIAM GUERRA VOCÊS CONSEGUIRAM!” Explodiu o rei em ira subitamente.
_Eu também a amava. Disse Gamblior. _Eu não a matei e sou inocente de suas acusações. Não lhe ocorreu que esse assassinato pode ter sido um plano de Durkan, o Cananor, para me incriminar e ao mesmo tempo vingar de sua filha por não lhe corresponder o amor como ele tanto queria?
_Durkan quase morreu tentando defender minha filha. Seu peito possui uma cicatriz que ele jamais poderia infligir a si mesmo. E muitos viram você fugindo da cena do crime na calada da noite. Quando os soldados foram ao seu encalço você e sua comitiva já tinha fugido.
_Eu havia anunciado que partiria pela madrugada, Cronder. E assim o fiz.
_Era para ser um dia feliz. Lamuriava o rei. _O aniversario de minha filhinha. O dia em que ela escolheria um esposo. Para amá-la e protege-la. Como os deuses foram cruéis comigo. Como foram cruéis. Agora ela encontra-se em uma câmera fúnebre. Pronta para ser cremada. E nem poderá ser vista pelo seu povo uma ultima vez.
_Por quê? Eu não entendo. Questionou Gamblior
_Não entende? Como você pode ser tão cruel. E pensar que eu te vi quando eras apenas um garoto. Jamais pensei que se transformaria nesse monstro. O que você não entende seu animal? Não entende que seu golpe a deixou irreconhecível? Que o lindo rosto de minha filha agora não passa de uma figura disforme e vermelha?
_EU NÂO A MATEI. EU JAMAIS FARIA ISSO. EU A AMAVA. Explodiu em loucura Gamblior caindo em prantos logo em seguida.
_Não importa. Disse calmamente o rei. _Meus filhos agora marcham com o exercito de Stavianath para pelejar contra teu pai. Ao que parece os caminhos das cordilheiras não são mais tão bem vigiados como antigamente. Agora dentro de seis dias você será julgado. Ao que me parece um lendário guerreiro de sua terra natal também acredita em sua inocência. Um guerreiro do qual eu não possuo suspeitas. Pois todos sabem de sua imparcialidade diante de assuntos políticos. O único que teve a coragem de jogar a verdade na cara de teu pai quando foi preciso...
_De quem está falando? Indagou Gamblior enxugando as lágrimas.
_Falo de Andivari, homem sem reino. Ele e mais dois estão dispostos a buscarem a prova para inocentá-lo.  _Não somos os bárbaros que os outros povos acreditam que sejamos. Todos possuem o direito de defesa. Até mesmo o assassino de minha filha. Se esse guerreiro está disposto a defendê-lo eu devo permitir. Ele possui seis dias para ir atrás do único que poderia inocentá-lo. O bruxo Lecain. Somente ele pode ver através do tempo. Seja ele futuro ou passado. Porem ele saiu para seu retiro anual na floresta. Soube de um prisioneiro que conhece bem as florestas. Vou enviá-lo para ser guia daqueles que advogam sua causa. Não faço isso por ti. Mais pela criança que um dia você foi. E porque mais do que ninguém, eu quero saber a verdade.
O rei afastou da grade deixando Gamblior com um olhar ansioso. Logo em seguida soldados passaram pela cela levando um jovem prisioneiro com eles.
_Esperem. Gritou Gamblior.
Quando os soldados pararam surpresos Gamblior pode notar o prisioneiro. Ele possuía cabelos cobreados e orelhas levemente pontiagudas. O olhar amendoado e as feições afinadas o denunciavam. O prisioneiro era um mestiço. Filho de humanos com os senhores do ar.
_Qual o seu nome? Perguntou Gamblior ao prisioneiro que era levado pelos soldados.
_Quem lhe deu o direito de fazer alguma pergunta cão insolente. Vociferou um soldado para Gamblior.
_Sou Gamblior, filho de Fandron. E apesar de estar sendo acusado de assassinato, quando minha inocência for provada não irás querer que eu tenha más lembranças de ti soldado. Gamblior se ergueu majestosamente e por um momento os soldados tiveram a ilusão de que ele estava liberto.
O Jovem prisioneiro respondeu: _Sou Guntz, Vesser Guntz, senhor.
_Diga a Andivari e seus companheiros, Vladislav e Verbena que eu agradeço. Guie-os bem por onde quer que vá, meu jovem. São boas pessoas que eu tive o prazer de conhecer nos dias festivos dessa cidade. Antes de toda essa loucura. Guie-os bem e terás minha terna amizade.
_A amizade de um prisioneiro não me vale nada meu senhor. Falou Guntz com um gracejo na voz. Mas o ouro recompensador de um príncipe inocentado é bastante motivador.
_Vamos andando imbecil. O guarda puxou Guntz que saiu aos tropeções.
_Hei... Vá com calma seu pulguento!
Enquanto eles se afastavam deixando Gamblior novamente com a escuridão, uma luz de esperança surgia na sua mente. Ele conhecera Andivari e seus amigos nos dias de festas antecedentes ao trágico ocorrido. Andivari é um nobre guerreiro. Justo e leal. Amigo de vários reis e respeitado por todos eles. Inclusive por seu pai. Beberam juntos e conversaram muito. Vladislav demonstrou ser um bravo guerreiro. Desconfiado de tudo, todavia, bondoso por trás daquele olhar abrutalhado. Verbena era uma donzela que poderia ser facilmente confundida com uma guerreira do norte. Apesar de manejar a espada melhor do que muitos homens que conhecera, ela havia ficado muito feliz quando ganhara um belo vestido para ir ao evento festivo. Feliz como qualquer donzela ficaria. “_São boas pessoas.” Pensava Gamblior enquanto se encolhia num canto da cela tentando se aquecer. “Nessas pessoas estão depositadas a minha esperança de sair vivo deste lugar e vingar a morte de minha amada Kathrina.”
Certos momentos o frio aumentava. Acreditava que era nesses momentos que caía a noite. 
 


quinta-feira, 3 de julho de 2014

O início de uma jornada

As trevas ainda dominavam o horizonte quando Andivari e Vladislav acordaram. Depois de um rápido desjejum, selaram os cavalos e tomaram rumo ao alto da colina. Subiam sem pressa, ainda meio sonolentos. Quando estavam no meio do caminho, surgiram os primeiros raios vermelhados de Álax, a estrela que ilumina Eralfa, trazendo o calor de um novo dia. O ar estava umidificado devido à chuva do dia anterior dando um prazer agradável a Andivari quando ele enchia os pulmões de ar. Atrás dele vinha Vladislav, com o olhar sombrio mesmo diante de um dia que prometia ser agradável. Andivari demonstrava ter certa preocupação com o amigo. “_Já faz tantos anos...” _Pensava Andivari. ”_Qualquer homem já teria superado sua perda, seja ela qual fosse.”           Alheio aos pensamentos de Andivari, Vladislav cavalgava em silencio. Nem mesmo a luz do dia afastava dele seu semblante sombrio. “_Tenho que tentar...” _Pensava consigo. “_Se a morte anda sempre ao meu lado, devo buscar meus inimigos. Assim levarei a morte até eles”.
_Alto lá... Quem são vocês? Uma voz feminina, mas potente cortou o ar tirando Vladislav de seu devaneio filosófico. A moça de aparência bela, mas rude tinha em suas mãos uma espada recentemente afiada e sobre seu corpo um vestido feito de pele de carneiro cobria-lhe as curvas femininas.
_ Viemos ver Aroc, o ferreiro. Disse Andivari observando a moça que acreditava ser a pequena garotinha que conhecera no passado.  
_Meu pai não exerce mais a profissão. Se desejarem os serviços completos de um bom ferreiro eu sugiro irem até a capital. Mas caso seja apenas um pequeno reparo, eu posso fazer por um preço justo, claro.
_Na verdade não estamos atrás dos serviços de um ferreiro. Eu vim a pedido do próprio Aroc. Você deve ser Verbena, estou correto? Sou Andivari e este comigo é Vladislav.
A moça olhou os dois homens com um olhar cético por alguns instantes e então disse:
_Sim, sou Verbena, filha de Aroc. Perdoem-me, mas somente agora reconheci o seu amigo. Ele mora colina abaixo, não é mesmo? Lembrei-me dele. Ele foi uns dos que vieram ajudar meu pai no ultimo ataque que sofremos. A tristeza pareceu abater sobre a moça por um momento. _Na ocasião meu irmão falecera, mas sou grata por todos que vieram nos socorrer.
_Lamento por sua perda Verbena. Disse Andivari se compadecendo da jovem.
_Pois eu tenho lamentado aqueles infelizes não aparecerem aqui de novo. Agora estou armada com a antiga espada de meu pai e tenho treinado todos os dias. Não sou mais a garotinha indefesa e em apuros que eles encontraram naquele dia.
A jovem possuía um ódio nas palavras e uma determinação nos movimentos que brandia com a espada. Ainda que desajeitados. Andivari começava agora a entender quem Aroc gostaria que ele treinasse.
_Vamos garota, nos leve até seu pai. Disse Andivari com um sorriso no rosto. _Aroc terá muito que me explicar, a sim.
Álax já estava no centro do céu quando eles chegaram à cabana no alto da colina. Era uma cabana antiga. Feita com grandes toras de carvalho e o teto coberto com placas de metal. Uma parte onde ficava a chaminé havia sido feito com pedras sobrepostas umas as outras. Quando encontraram Aroc, ele estava acamado. Com uma barba enorme que lhe caía até o umbigo. Seus olhos semicerrados estavam com marcas de cansaço e dor. Andivari lamentou em seu íntimo ver o amigo naquela situação.                    
_Andi..vari, seu filho duma..cof... cof... ratazan..a .....cof.! Exclamou Aroc forçando a voz em meio a tosses e palavras. Quando Andivari percebeu que o velho se esforçava para se erguer correu até a cama onde Aroc estava.
_Não se esforce por minha causa cão de guerra. É muito bom revê-lo._Disse Andivari abraçando o amigo.
_Cuidado com. cof..cof..minhas costas filho. Já não sou mais o mesmo... cof..cof..! Anos de dedicação ao reino e eis minha recompensa. Tenho que dormir em minhas próprias fezes...
_Só quando o seu orgulho fala mais alto pai. _Resmungou Verbena.
_Você não entende minha..cof.. querida...cof ..cof... Já não basta o tormento das dores, tenho que ficar vendo minha própria filhinha tendo..cof...que...cof..me limpar? A angustia estava estampado no olhar do velho._ Prepare algo para..cof..nós comermos minha querida. Deixe me falar com esse velho amigo por um momento. Verbena fez uma reverencia aos três e saiu às pressas em direção à cozinha.
_Ela é uma boa garota. Os deuses bem sabem. E quem é esse jovem? Cof..cof...
_Esse é Vladislav, meu aprendiz.
_Que os deuses te guiem no caminho da justiça meu jovem... cof..cof... pois estás com o melhor professor. Lembro-me de você... você esteve aqui quando..cof..cof..cof ...Arrgh.. maldita tosse.
_Não remexa no passado meu senhor... Nem sempre ele nos trás boas recordações. O que passou, deveras já é passado. _Disse Vladislav.
_Sim. Mas às vezes o passado nos atormenta. Acredito que estou pagando por todas as vidas que tirei no campo de batalha.
_Lutávamos por uma causa justa meu amigo. Não se condene pelos seus leais anos de serviço ao rei._Disse Andivari.
_Iévine não é uma deusa da justiça. Quando... cof..cof... tiramos alguma vida ela afasta de nós seus ...cof...cof...olhos. Deixando-nos a mercê da ira de Bël- Teâncum. Lamuriou o velho Aroc. Mas, deixemos de lado a conversa vã. Quero... que você cuide de minha menina Andivari...cof cof...  ensine ela a lutar. Cometi o erro de acreditar que..cof...somente os homens deviam se preparar para o combate, mas as pragas de Bël não escolhem suas vítimas pelo sexo. Leve a contigo em tuas andanças. Eu em breve morrerei. Não quero minha... cof...cof...garotinha ao meu lado enquanto me definho aos poucos. Ela sabe cozinhar bem...
_Mas, quem..._Andivari começou a pronunciar as palavras, mas parou quando viu o olhar desesperado e aflito do velho.      
_Por favor, Andivari... se eu pudesse recorrer a outro eu recorreria.
_Tudo bem, meu amigo. Fez bem em me procurar. Só assim poderei retribuir as tantas vezes que salvou minha vida no campo de batalha. Amanha enviarei uma mensagem a um dos meus leais servos para cuidar de ti por quanto tempo for necessário. Estou mesmo indo até os festejos de Stavianath, na cerimônia de escolha do marido da princesa Kathrina e seria bom que Verbena viesse conosco. Vamos acompanhar a caravana do príncipe Gamblior.

_Obrigado meu amigo. Muito obrigado. Verás que Verbena não é totalmente laica com a espada. Meu falecido filho cof...cof...costumava ensiná-la às escondidas. Graças aos deuses ele cof...cof...cof...era mais sábio que eu. Teimoso sim, porem sábio. 
Naquela noite todos se alimentaram do guisado que Verbena fizera. Verbena aceitara ir com Andivari desde que ele cumprisse a promessa de enviar um servo leal para cuidar de seu pai. Os dois dias que passaram até a chegada dos servos de Andivari foram cheios de histórias e momentos agradáveis. No dia da partida Verbena chorou ao se despedir do pai, mas estava contente, pois o pai tinha uma expressão feliz que a muito tempo ela não via.
Os três viajantes desciam a colina cavalgando três belos cavalos que os servos de Andivari havia trago. Lá embaixo podia se vê uma enorme cavalaria ao redor da carruagem real e mais atrás uma caravana enorme de viajantes e comerciantes que seguiam o séquito real.